Há muito tempo atrás existia uma linda aldeia chamada Afé. Nela viviam Ogum, Iansã e todos os que formaram a aldeia junto a Ogum, que nasceram nela e os que foram socorridos por ela também.”

Quando Ogum nela estava, tudo era plena harmonia, mas pouco a pouco Ogum foi se distanciando da sua tribo e empregando-se em batalhas que nem sempre havia a necessidade de sua autoridade e liderança presente, mas como era possível resistir a uma batalha a um novo desafio, se assim o fosse, não seria Ogum. Pode ser também que o afastamento foi dado, além é claro das batalhas gloriosas, pela confiança em Iansã como chefe de sua tribo e por saber que mesmo não sendo adepta aos afazeres domésticos, ela detinham a todos em suas orientações e conduzia como ninguém a vida dos seus. Mas, o que para Ogum além de obrigação era também prazeroso, ficava cada vez mais fadado para Iansã. Ela se encontra sempre sozinha e não era raro vê-la afastada dos cuidados a tribo, vagando pelas matas, rodeadas em seus pensamentos de uma vida livre. Foi numa dessas andanças sozinha que ela se encontra com Xangô.

Xangô, sua fama já era conhecida por ser o justiceiro e por não se prender a tribo alguma, quando precisava de guarita, subia até o alto das montanhas e se alojava em baixo das pedreiras, isso quando não era agraciado e achava uma gruta, o que claro era bem melhor. Xangô homem jovem, independente, liberto de prazeres que não fosse a ajuda aos menores, era ele o conciliador, era ele o apaziguador, mas também era ele o fogo a consumir quem não andava na Lei. Vagava pelas terras da Lemúria e vivia por ajudar a erguer tribos derrotadas ou em necessidades. Ensinava o cultivo e a criação de subsistência, chamava ao diálogo, mostrava que não precisava nunca fugir e sim se estruturar, nunca guerreava. E por essa sua fama, além da sua beleza e nobreza e da carência vivida por Iansã, ora abandonada constantemente por Ogum e suas batalhas, não foi difícil ela se entregar em paixão por ele. A troca do olhar foi mais do que suficiente para enamorar-se. Ele por não querer viver mais só e ela pela mesma intenção. Assim, o que muitos podem julgar como traição, entendemos que na verdade Iansã foi resgatar sua vida, já não havia como viver assim e muitos menos poderia saber se Ogum um dia voltaria, então partiram e muitos os acompanharam, e tão distantes as águas de Iemanjá os levaram das terras de Ogum e formaram a sua tribo.

Mas, Ogum voltou! E com grande ira recebeu a notícia que Iansã a abandonará e deixava para trás também toda a sua aldeia. O cavaleiro alado não suportou tamanho golpe, de mãos ao seu cavalo correu, e correu, e correu, mas não corria atrás de Iansã e nem corria atrás de Xangô, perdeu-se em seus sentimentos, só existia a ira em si, faltou à razão. Não questionou, mas também não queria ouvir questionamentos, só querer correr, até onde seu corpo suportasse. Já sem noção de onde estava e o quanto havia percorrido, deparou-se de frente ao pântano, era as terras de Nanã. Sabia que ali ninguém entrava sem permissão da velha senhora, mas razão e raciocínio não fazia parte de Ogum nesse momento, tão irado quanto estava ao sair a galope de sua aldeia, agora era tão vazio como ele se sentia e assim adentrou ao lamaçal. Logo não demorou e percebeu que o seu alado não marchava mais, desceu dele e continuou a caminhar a pé.

Poucos passos foram necessários para que a terra começasse a tragá-lo e a ira lhe recaía novamente: Velha cadê você? Se me ouves, eu sou Ogum, General de Exército e Senhor das Batalhas, me tira daqui!

E o Senhor Ogum quanto mais tentava sair mais submergia no lamaçal. Até que se ouve uma voz a dizer:

Boa noite cavaleiro! Não estais de ronda nas minhas terras, não está em batalha nem por ela e nem em defesa dela, não está a procura de abrigo, então, o que fazes nela sem minha permissão ? Era Nanã Buruquê, a senhora dos Orixás, a senhora do equilíbrio, do eixo, da sabedoria.

Ora velha respondia Ogum E eu preciso de autorização para pisar aonde meus pés me levarem? Não sabes quem eu sou nada temo tudo enfrento, luto e defendo, sou fiel, sou verdadeiro, então por que preciso que me direcionem por onde eu andar?

Nanã diz a Ogum: Tudo o que Zambi nos dar ele é o único que pode tirar, mas, somos nós que muito perdemos o que nos é dado. Veja você mesmo cavaleiro andante, há um dia vivia a glória, o resultado das batalhas conquistadas de enobrecia, a força do teu nome percorria os quatro cantos da terra, destemido e admirado por todos, menos para quem vivia contigo. Do que adiantava tanta luta, tanta guerra, tantas batalhas, se não conseguia se livrar delas a cada fim. Sempre voltava ao seio do lar com a luta ainda presente e quanto não mais a tinha, buscava-a em outros campos, deixando tudo e a todos que lhe tinham ao redor e assim sempre acabava deixando a si mesmo. Quando Iansã o deixou, tu já não vivia com ela e nem ela contigo. Lembra qual foi a última vez que olhaste ao sorriso da bela moça? Os detalhes que antes era percebido e agora nem fazem parte do teu convívio. E quantas noites em campo tu planejava qual seria a melhor estratégia para o amanhecer, enquanto Iansã vagava aos ventos esperando que o nascer do sol lhe desse nova direção.

-Mas perdeu não é Ogum, e derrota não existe para ti não é Ogum? Se perdeste, foi para ti mesmo, e hoje te mostro que a força da tua espada não vence a tudo, e te mostro que a tua robustez e o teu isolamento são fracos e não te valem quanto realmente precisas. Levanta-te, tenta sair! Quanto mais força empregar, mais será sucumbido. Agora olha para cima, a lua já não ver mais, ninguém estar ao teu lado, meus os animais de teu irmão estão chamando por ti, nem teu alazão, nem a tua casa, nem os teus guerreiros, nem a tua espada te vale agora, é o fim, e por tantos que fez, para ti e para os teus de nada valeu.

Então me ajuda velha! Clamou Ogum.

Se está preparado realmente para ser ajudado, deverás deixar no lodo muito de ti falou Nanã. Ogum neste momento não se viu derrotado, se viu em necessidade, em apelo, e disse: Eu sei Nanã! Agora eu sei e vejo com meus olhos o caminho a seguir sem precisar que a lua me ilumine Sei que a cada um dos meus eu deva me valer, como os meus devem ser valer por mim. Sei que perdi Iansã, e lutarei pela sua felicidade, a mesma que não a dei. Hoje eu vejo o quanto a minha vida já havia ceifado, e aqui iria partir apenas a matéria. Entregarei a minha força a vida Nanã e lutarei por ela, entregarei a minha espada ao fraco Nanã e lutarei por eles, e não me esquecerei de mim e dos meus. Entregarei a minha vida a quem feliz eu possa fazer e feliz eu possa ser. Enquanto eu caminhar nessa terra, seguirei os caminhos do meu coração e não dos meus pés. Buscarei a felicidade e não há razão. Ouvirei os meus impulsos para agir e não para destruir. Se me tiraste daqui Nanã, saberei que nem tudo eu posso fazer, mas para tudo eu posso melhorar. E Nanã estendeu a sua mão a Ogum, e sem nenhum esforço de força o levantou do lamaçal e disse: Agora vá meu cavaleiro! Eu não preciso e não uso a força do aço para nada, porque eu sei manipular a terra e a água desde o princípio do mundo, mas tu terás nela, a tua espada, por esmero, a força maior. Sinta-a como parte de seu corpo e corte tudo o de negativo ao teu redor.

Antes de sair de frente a Nanã, Ogum fez um juramento: A minha espada brilhará a cada raiar do dia, mas agora não apenas para mim, mas para todos que são meus, enquanto eu sei que os meus empunharão as suas espadas para mim.

E assim, Ogum volta as suas terras. Ao chegar, todos os olhares lhe são de temor, aguardando a reação do seu general. Ogum encontra-se num canto da cocheira o seu alazão que havia retornado só e chora. Eu hoje sou Ogum, vencedor de demandas, estarei nas terras de Aruanda em combate as forças do mal. Quem estiver comigo, eu e vós seremos um só de hoje em diante, e quem não estiver comigo, mas estiver dentro da lei, comigo também estará. Que Zambi traga os ventos de Iansã pela luz do sol de Xangô sempre que precisarmos e não apenas a minha espada, mas a de todos nós seja servida a necessidade de quem precisar. Por amor, por união, por justiça.

Passados dias, Ogum já havia retomado a alegria da sua aldeia. Agora, nem sempre era ele que ia aos combates, muitos passaram a ir por ele, quando Oxossi seu irmão o visita. Vejo Ogum como suas terras estão floridas, como os campos estão prospero, como inspira paz, mas vejo um coração ainda triste, choras por Iansã?

perguntou seu irmão Oxossi.

Não! Não por Iansã. sei o quanto ela esta bem e o quanto hoje é feliz em sua aldeia com Xangô e agora sei que posso contar com ambos em minhas necessidades, como ambos sabem que podem contar comigo. Recuperei a minha aldeia, a confiança e a alegria dos meus, mas me sinto só, mesmo cercado de muitos respondeu Ogum.

Oras, então não chores mais. Sabes que nas terras ao lado da sua é a aldeia de Oxum? Tão semelhante a ti meu irmão ela também vive só, vai até a beira do rio todo entardecer chorar por viver só. Ella é muito apegada a sua aldeia e nunca teve o encontro do amor, acredita sempre que a união é eterna e para sempre, por isso não abriu ainda seu coração. Chora cansada por vezes por tamanha luta que tem de cuidar dos seus, mas é a mãe mais generosa que existe em Aruanda. Se algo grande a ofertá-la como forma de lhe mostrar que estaria disposto ao seu lado viver pela eternidade, quem sabe a conquista! diz Oxossi.

O que seria algo grande meu irmão? Minha força, minha coragem, minha destreza e meu coração? perguntou Ogum.

Tudo isso junto respondeu Oxossi. Vá e busque teu alazão, e nele suba até a pedra grande e busque-a para Oxum, como prova que foi preciso empregar por ela a tua força, a tua coração, a tua destreza e o teu coração. Mas lá em cima mora a maior força maligna existente! Como poderei eu só ser contra ele? perguntou Ogum. Eu sei disso, respondeu Oxossi. E por isso mesmo lhe entregarei meu escudo, meu broquel, para usá-lo em defesa contra ele. Ele se mostrará como um dragão cuspidor de fogo e lançará as chamas contra ti, levanta o escudo e proteja-se no tempo certo aonde a chama rebaterá sobre ele, será a grande o oportunidade em fincar a tua espada sobre ele. Vencendo-o, desça a pedra grande e na terra estarei te esperando para carregá-la contigo até Oxum.

Mas se faço tudo isso e Oxum não me aceitar. Como saberei que tudo que estarei me empenhado realmente conseguirei? perguntou Ogum.

Lembra-se do que disseste a Nanã, que daquele momento em diante seguiria os caminhos de teu coração e não dos teus pés, então assim o faça, siga a vontade de teu coração e deixa que eu falarei com Oxum sobre o que irás realizar por ela, com certeza ela ficará sensibilizada com este ato e te aceitará respondeu Oxossi. E assim fez Ogum, e como havia lhe dito seu irmão, assim também o fez, esperou o momento certo para levantar o escudo que rebateu o fogo do dragão, fincou a sua espada nele e o tirou da pedra grande. Com muita força trouxe a pedra grande para terra aonde Oxossi o esperava ao pé do Humaitá para ajudá-lo a carregar até as terras de Oxum. Caminharam por entre as matas, subiram por entre as pedreiras onde Xangô e Iansã admiravam seu esforço. Passaram ao lado do pântano e Nanã lhe sorriu, até que chegaram à entrada das terras de Oxum. Nessa hora seu irmão lhe deixou só para que este estivesse com Oxum e pudesse lhe mostrar o que trazia para ela. E Ogum deu a lua para Oxum iluminando toda a sua aldeia e pediu para que ela o aceitasse ao seu lado e juntos formarem uma linda nação.

E assim Zambi se alegrou e de tanta alegria que a terra vivia, Zambi deu aos dois Oxumaré, mais essa é uma outra história que um dia vou lhes contar.

Terminou dizendo, filha: mito, lendas, histórias? Quem disse que a verdade não está nelas também? Hehehehehe!!!

Saravá Pai Joaquim da Guiné!

FLÁVIO FERREIRA DIRETOR DE LITURGIA

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