Por Que Tomar Banho Com 7 Pedras De Sal Grosso? Qual Explicação Dos Sete?

Tudo na Umbanda gira em torno da cabalística do sete. Deus fez o mundo em sete dias, temos sete dias na semana, sete cores do espectro solar, sete arcanjos, o sete vezes setenta e sete – referência do Mestre Jesus ao perdão, sete Linhas de atuação, sete ordens celestiais, sete ervas de cada Orixá, sete noites de cada fase da lua e assim vai.
Todos os banhos direcionados com sal grosso envolvem também o sete, sete pedras ou sete punhados. O sal é condensador de energia natural, além de ser um forte combustor, sendo utilizado desde os primórdios da humanidade como fonte de riqueza natural. Na Umbanda, ele se torna um excelente canalizador e descentralizador de energias, servindo tanto para magnetizar, como para desmanchar, assim, os Guias utilizam este fabuloso elemento para descarregar as energias negativas ao nosso redor, como também usam para intensificar o nosso magnetismo positivo.

Flávio Ferreira
Diretor de Liturgia

Liturgia sobre Ogum

“A Umbanda não é responsável pelos absurdos praticados em seu nome, assim como Jesus Cristo não é responsável pelos absurdos que foram e que são praticados em Seu
nome e em nome de seu Evangelho” – Caboclo Tupinambá.

A FÉ TRANSPORTA MONTANHAS – CAPÍTULO XIX – A FÉ RELIGIOSA.
CONDIÇÃO DA FÉ INABALÁVEL – EVANGELHO SEGUNDO ESPIRITISMO

6. Do ponto de vista religioso, a fé consiste na crença em dogmas especiais, que constituem as diferentes religiões. Todas elas têm seus artigos de fé. Sob esse aspecto, pode a fé ser raciocinada ou cega. Nada examinando, a fé cega aceita, sem verificação, assim o verdadeiro como o falso, e a cada passo se choca com a evidência e a razão.
Levada ao excesso produz o fanatismo. Assentando no erro, cedo ou tarde desmorona; somente a fé que se baseia na verdade garante o futuro, porque nada tem a temer do
progresso das luzes, dado que o que é verdadeiro na obscuridade, também o é à luz meridiana. Cada religião pretende ter a posse exclusiva da verdade; preconizar alguém
a fé cega sobre um ponto de crença é confessar-se impotente para demonstrar que está com a razão.

7. Diz-se vulgarmente que a fé não se prescreve, donde resulta alegar muita gente que não lhe cabe a culpa de não ter fé. Sem dúvida, a fé não se prescreve, nem, o
que ainda é mais certo, se impõe. Não; ela se adquire e ninguém há que esteja impedido de possuí-la, mesmo entre os mais refratários. Falamos das verdades espirituais básicas e não de tal ou qual crença particular. Não é à fé que compete procurá-los; a eles é que cumpre ir-lhe ao encontro e, se a buscarem sinceramente, não deixarão de achá-la.
Tende, pois, como certo que os que dizem: “Nada de melhor desejamos do que crer, mas não o podemos”, apenas de lábios o dizem e não do íntimo, porquanto, ao dizerem
isso, tapam os ouvidos. As provas, no entanto, chovem-lhes ao derredor; por que fogem de observá-las? Da parte de uns, há descaso; da de outros, o temor de serem forçados a mudar de hábitos; da parte da maioria, há o orgulho, negando-se a reconhecer a existência de uma força superior, porque teria de curvar-se diante dela.

Em certas pessoas, a fé parece de algum modo inata; uma centelha basta para desenvolvê-la. Essa facilidade de assimilar as verdades espirituais é sinal evidente de
anterior progresso. Em outras pessoas, ao contrário, elas dificilmente penetram, sinal não menos evidente de naturezas retardatárias. As primeiras já creram e
compreenderam; trazem, ao renascerem, a intuição do que souberam: estão com a educação feita; as segundas tudo têm de aprender: estão com a educação por fazer. Ela,
entretanto, se fará e, se não ficar concluída nesta existência, ficará em outra.
A resistência do incrédulo, devemos convir, muitas vezes provém menos dele do que da maneira por que lhe apresentam as coisas. A fé necessita de uma base, base que é
a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é deste século, tanto assim que precisamente o dogma da fé cega é que produz hoje o maior número dos incrédulos, porque ela pretende impor-se, exigindo a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É principalmente contra essa fé que se levanta o incrédulo, e dela é que se pode, com verdade, dizer que não se prescreve. Não admitindo provas, ela deixa no espírito alguma coisa de vago, que dá nascimento à dúvida. A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis porque não se dobra. Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.

OGUM NA UMBANDA

Inicialmente devemos perder de vista a ideia preconcebida de que Ogum seja um ser individualizado, personificado na figura de um santo. Ogum não é um ente; é uma vibração divina, um Orixá. Uma das sete vibrações originárias emanada diretamente de Deus. Ogum é a vibração que nos impulsiona à luta, às guerras, é a nossa coragem, o nosso ânimo para vencer as constantes batalhas que travamos em nosso cotidiano. Ele nos move, é a direção para o campo íntimo e verdadeiro, é a força que nos dá a esperança e nos anima para continuar a viver, sobrevivência. É invocação para vencer demandas, desfazer malefícios causados por espíritos de baixo grau evolutivo, para
acender a chama da fé.

No campo dos fenômenos naturais, a vibração Ogum é a que está ligada ao fogo em todas as suas manifestações. No campo da divindade ele está ligado ao elemento da natureza chamado: SER HUMANO. Além disso, Ogum também está ligado aos metais em geral, sendo que o ferro e o aço puro são consagrados à vibração, na conta de metais sagrados. Seu dia 23 de abril se dá ao sincretismo com São Jorge, sua cor é vermelha e na semana ele vibra na TERÇA-FEIRA. Suas principais ervas são: Espada de São Jorge, Romã (folha), Jurubeba, Comigo-Ninguém-Pode, Erva de Bicho, Losna e Cinco Folhas.
Ele é o Orixá Patrono da Umbanda, General de Umbanda, Chefe da Esquerda. Por estar ligado diretamente à essência divina e nós seres humanos, a Linha de Trabalho de
Ogum possui atuação em todas as vibrações originárias, sendo SETE vibrações que podem ser manifestadas na Umbanda tanto por seus Falangeiros, como pelos Caboclos
de Ogum, são elas:

OGUM DE LEI / MATINATA: Trabalha em vibração com Oxalá / Ibeijada;
OGUM BEIRA-MAR: Trabalha em vibração com Iemanjá;
OGUM MALEI / MALÊ: Trabalha em vibração com Xangô / Orientais;
OGUM ROMPE-MATO: Trabalha em vibração com Oxóssi;
OGUM IARA: Trabalha em vibração com Oxum / Iansã;
OGUM MEGÊ: Trabalha em vibração com Omulú / Almas e
OGUM DE RONDA: Trabalha em vibração com Obaluiaê / Exú.

Os Caboclos de Ogum se manifestam de forma bem firme e rápida, marcando muito bem sua presença. Costumam bater uma das mãos no peito e emitir um brado bastante sonoro. Em seus trabalhos aplicam passes de limpeza magnética e de energias revigorantes. Costumam aplicar os passes, portanto Espadas de São Jorge em suas mãos, que utilizam como condensadores e dispersores de energias. Na essência, as Entidades que trabalham nessa linha, assim como acontece em todas as demais, não têm necessariamente de ter tido encarnações como índios, pois “Caboclo” é um arquétipo. O que importa então é a capacidade de trabalho e a sintonia com a vibração da Linha.
Esses são os nomes mais comuns para os Caboclos de Ogum: Caboclo Rompe Mato, Caboclo Beira-Mar, Caboclo Sete Espadas, Caboclo Sete Estrelas, Caboclo Pena Vermelha, Caboclo Pena Azul, Caboclo Akuan, Caboclo Rompe Nuvem, Caboclo Icaraí, Caboclo Tamoio, Caboclo Sete Ondas, Caboclo Águia Solitária, Caboclo Lua Vermelha e Caboclo Lua Azul. Todos atuam em sintonia com o Campo do Humaitá, local de batalhas terrenas e espirituais.

Humaitá é uma palavra de origem indígena que quer dizer “pedra preta” ou “a pedra agora é negra”. Era o nome de uma fortaleza paraguaia, derrubada pelos brasileiros durante a Guerra do Paraguai, em 1868. Grande parte dos combatentes eram escravos negros. Conta-se que muitos haviam substituído os filhos dos seus donos no alistamento para o conflito. Quando retornavam, com o corpo mutilado pela lembrança e pela dor, esses escravos ganhavam a alforria de seus senhores e podiam gozar da liberdade. Esse combate foi muito marcante, tanto que o campo de batalha do Humaitá passou a ser visto como símbolo de vitória, lugar de vencer demandas e desafios. Afinal, aquela guerra não era deles, mas ainda assim eles combateram de peito aberto, sob a proteção de Ogum.

A palavra entrou para os Pontos Cantados de Umbanda e assumiu outro sentido, passou a ser um lugar sagrado, onde mora Ogum, porque havia sido uma terra de penas e de dor, mas também onde se provara a fé daquela gente. O nome indígena do lugar se deve à presença massiva de descendentes de escravos na região. Há vários pontos que fazem referência ao Humaitá, citando que lá Ogum jurou sua bandeira, deu mostras de sua fidelidade e de que nunca nos abandona, exemplo:

Beira-Mar auê, Beira-mar – Beira-Mar auê, Beira-mar.
Ogum já jurou bandeira, nos campos do Humaitá.
Ogum já venceu demanda, vamos todos sarava!
Ê Beira-Mar!

Portanto, Humaitá tem tudo a ver com a Umbanda. É um lugar de nome indígena para onde os negros escravos foram mandados a guerrear. Traz em si a força dos Caboclos e dos Pretos-Velhos. Mas acima de tudo, é uma terra onde reina Ogum, o combatente, o guerreiro, o vitorioso e nós estamos ligados diretamente a este campo de força. O campo do Humaitá está nós, nas nossas batalhas, nas nossas lutas, na nossa fé, na nossa perseverança, por isso OGUM vibra em todos nós.

Ogunhê! Patacuri Ogum!

VEREDA DA LUZ – CASA ESPIRITUAL
28/08/2017
Flávio Ferreira Costa
Diretor de Liturgia

Compreendendo a mediunidade de Umbanda

PENSE COMIGO NESTAS CONSIDERAÇÕES ABAIXO

Há anos insistimos para um novo olhar à mediunidade praticada no ambiente de terreiro. Refutamos a generalização posta para o sentido mediúnico na obra “kardequiana” não sem considerar de extrema relevância como objeto primário de estudo sobre o tema e de fundamental importância ao público que se destina.

Umbandista não é Espírita, Umbandista praticante não é Ramatiano, Umbandista é Umbandista.

Estas considerações podem parecer duras, mas se você pôr-se a reflexão sensata começará a descortinar um novo entendimento.

Ramatís por sua vez, junto com Hercílio Maes, ampliou o olhar sobre a mediunidade em seu clássico Mediunismo – Ed. do Conhecimento e, no entanto não esgota o assunto como também inevitavelmente concentra suas reflexões para o novo movimento que se estabelecia o Ramatiano.

Desde então o Umbandista para compreender sua mediunidade precisava beber de outras fontes, de outros focos sobre o que se passava, o mesmo ocorreu com nossos antecessores onde muitos para compreender a Umbanda foram buscar resposta no Candomblé, na Nação, no Espiritismo etc. se esquecendo de perguntar a quem é de direito, a própria Umbanda.

Quero reiterar a peculiaridade que é o trabalho mediúnico de Umbanda, os desdobramentos que se desenvolvem numa Gira. Tudo o que envolve o trabalho de Umbanda, defumação, ponto riscado, curimba, vela, ervas, líquidos etc. Isso não é crendice, não é opção, tem fundamento, tem sentido, tem necessidade é específico e peculiar. Toda este complexo uso de elementos e ritos num trabalho de Umbanda gira em torno da mediunidade, esta, portanto que é própria deste ambiente.

Não há acaso, ninguém se estabelece convicto numa vibração religiosa, isso é ancestral, é um reencontro, um chamado e uma via particular da sua trajetória evolutiva. Por isso tantas religiões, mesmo mediúnicas e tantos fiéis e ativos religiosos em todas elas.

Estabelecer-se numa vivência religiosa e mediúnica não acontece por convencimento discursivo, não é meramente uma relação intelectual, negativo, trata-se de uma relação profundamente emocional, de alma, que transcende o intelecto e a capacidade de discursar sobre efetivamente porque ali você se sente em contato com Deus. É místico e é poderoso. No entanto uma vez arrebatado é que começa a verificação racional, o entendimento dos processos e crença, naturalmente.

Portanto a mediunidade para aquele que nasce inclinado para a seara espírita (mesa branca) é vibratóriamente diferente daquele que tem inclinação para a Umbanda e assim em todos os casos.

Estudar a Mediunidade na Umbanda é, portanto a porta de entrada para uma compreensão específica, particular daquele que vivencia uma realidade única em seu corpo, no transe e no rito. Convido a você, para neste ano estudar a fundo a sua mediunidade na Umbanda e oportunidade melhor não há tão cedo, porque este ano estaremos na regência de Oxóssi – o Sábio – o Conhecimento; poderemos nos aprofundar em nossas sensitividades e deixar florir a mais alta elevação espiritual. Cabe a cada um, cabe a nós, e este ano, a Vereda da Luz se revestirá de mediunidades e espero que você possa se aprofundar na sua, junto conosco.

FLÁVIO FERREIRA DIRETOR DE LITURGIA

A vida de médium

Então sexta-feira ele saiu apressado do escritório. Antes de entrar no carro, recusou o convite para um chopinho com o pessoal de sua repartição. Ouviu uma ou duas gracinhas, mas nem se importou, já estava acostumado com aquela situação. Seus amigos não entendiam a tamanha dedicação que ele tinha por sua religião.

Chegou a sua casa e foi direto se preparar para o banho, seus pensamentos já estavam todos focados no que aconteceria naquela noite. Passou pelo quintal e pegou uma vasilha com um líquido de ervas dentro. Ele havia preparado no dia anterior, e deixou lá tomando sol e sereno. Alguém lhe dissera que isto potencializava a energia daquele macerado. Banho tomado, líquido com as ervas no corpo derramado, e lá estava ele. Já nem parecia mais o executivo de terno e gravata, celulares e compromissos importantes. Todo de branco, cabelo sem gel e uma felicidade estampada no semblante. Beliscou um pedacinho de pão caseiro que estava sobre a mesa, pois naquela noite não iria jantar. Olhou no relógio como quem calcula minuto por minuto para não se atrasar. Coração já começara a bater mais forte, pois a semana inteira esperou por este dia. Voltou ao quintal e entrou em algo que parecia um quartinho. No local, em cima de algumas prateleiras forradas com toalhas brancas, imagens, pedras, velas, incensos e um curioso bem estar. Acendeu uma vela branca bem ao centro, fez suas orações pedindo à espiritualidade que lhe acompanhasse. Olhou para a imagem de um índio que estava na prateleira ao lado, e, em silêncio, como quem fala com o olhar, pediu para ele também lhe acompanhar. Bateu a cabeça naquele altar, respirou fundo e sentiu as batidas de seu coração aumentar.

Logo já estava lá, uma casa simples, porém, muito bem organizada. Na entrada se curvou como quem cumprimenta alguém. Abraçou seus amigos, pediu a benção para um senhor, guardou uma mochila que trazia com ele. Bateu a cabeça em algo muito parecido com o altar que ele tinha em sua casa, mas bem maior. Posicionou-se como que fazendo parte de um círculo de pessoas. Todos em silêncio, em oração. Estava ele em uma corrente de irmãos. Fora da corrente, pessoas se acomodavam em bancos. Novos, velhos, pobres, ricos, brancos, pretos e amarelos. Não havia distinção. Todos seriam atendidos naquela noite. O toque do tambor demonstra que está começando a reunião. Reunião de pessoas encarnadas e desencarnadas, em nome do amor. Uma lata perfurada, com ervas sobre a brasa, é passada de um lado para outro. Nesta hora seu coração ficou sereno. Não está mais ansioso, está entregue de corpo, alma e pensamento. Pedindo a Deus que faça dele seu instrumento.

Mais adiante, depois de algumas canções e palmas, ouve-se uma letra que fala das matas, dos nativos da floresta. Seu pensamento se volta até a imagem do índio com quem trocou olhares em sua casa. Sente então uma presença ao lado, e mesmo sem nada ver, sabe que é ele que está ali. Sabe que ele lhe escutou, atendeu seu pedido e lhe acompanhou. Nesse momento seu coração novamente disparou. Toda a espera da semana, as preparações que antecederam este momento e a recusa do chopinho com o pessoal do seu departamento. Seu mentor unido a ele espiritualmente para mais uma noite de caridade, mais uma noite cumprindo sua missão. Mais uma noite na vida de um médium de coração.

Escrito em 05/02/2011 por Ricardo Barreira

A Lenda dos orixás – Pai Joaquim da Guiné

Há muito tempo atrás existia uma linda aldeia chamada Afé. Nela viviam Ogum, Iansã e todos os que formaram a aldeia junto a Ogum, que nasceram nela e os que foram socorridos por ela também.”

Quando Ogum nela estava, tudo era plena harmonia, mas pouco a pouco Ogum foi se distanciando da sua tribo e empregando-se em batalhas que nem sempre havia a necessidade de sua autoridade e liderança presente, mas como era possível resistir a uma batalha a um novo desafio, se assim o fosse, não seria Ogum. Pode ser também que o afastamento foi dado, além é claro das batalhas gloriosas, pela confiança em Iansã como chefe de sua tribo e por saber que mesmo não sendo adepta aos afazeres domésticos, ela detinham a todos em suas orientações e conduzia como ninguém a vida dos seus. Mas, o que para Ogum além de obrigação era também prazeroso, ficava cada vez mais fadado para Iansã. Ela se encontra sempre sozinha e não era raro vê-la afastada dos cuidados a tribo, vagando pelas matas, rodeadas em seus pensamentos de uma vida livre. Foi numa dessas andanças sozinha que ela se encontra com Xangô.

Xangô, sua fama já era conhecida por ser o justiceiro e por não se prender a tribo alguma, quando precisava de guarita, subia até o alto das montanhas e se alojava em baixo das pedreiras, isso quando não era agraciado e achava uma gruta, o que claro era bem melhor. Xangô homem jovem, independente, liberto de prazeres que não fosse a ajuda aos menores, era ele o conciliador, era ele o apaziguador, mas também era ele o fogo a consumir quem não andava na Lei. Vagava pelas terras da Lemúria e vivia por ajudar a erguer tribos derrotadas ou em necessidades. Ensinava o cultivo e a criação de subsistência, chamava ao diálogo, mostrava que não precisava nunca fugir e sim se estruturar, nunca guerreava. E por essa sua fama, além da sua beleza e nobreza e da carência vivida por Iansã, ora abandonada constantemente por Ogum e suas batalhas, não foi difícil ela se entregar em paixão por ele. A troca do olhar foi mais do que suficiente para enamorar-se. Ele por não querer viver mais só e ela pela mesma intenção. Assim, o que muitos podem julgar como traição, entendemos que na verdade Iansã foi resgatar sua vida, já não havia como viver assim e muitos menos poderia saber se Ogum um dia voltaria, então partiram e muitos os acompanharam, e tão distantes as águas de Iemanjá os levaram das terras de Ogum e formaram a sua tribo.

Mas, Ogum voltou! E com grande ira recebeu a notícia que Iansã a abandonará e deixava para trás também toda a sua aldeia. O cavaleiro alado não suportou tamanho golpe, de mãos ao seu cavalo correu, e correu, e correu, mas não corria atrás de Iansã e nem corria atrás de Xangô, perdeu-se em seus sentimentos, só existia a ira em si, faltou à razão. Não questionou, mas também não queria ouvir questionamentos, só querer correr, até onde seu corpo suportasse. Já sem noção de onde estava e o quanto havia percorrido, deparou-se de frente ao pântano, era as terras de Nanã. Sabia que ali ninguém entrava sem permissão da velha senhora, mas razão e raciocínio não fazia parte de Ogum nesse momento, tão irado quanto estava ao sair a galope de sua aldeia, agora era tão vazio como ele se sentia e assim adentrou ao lamaçal. Logo não demorou e percebeu que o seu alado não marchava mais, desceu dele e continuou a caminhar a pé.

Poucos passos foram necessários para que a terra começasse a tragá-lo e a ira lhe recaía novamente: Velha cadê você? Se me ouves, eu sou Ogum, General de Exército e Senhor das Batalhas, me tira daqui!

E o Senhor Ogum quanto mais tentava sair mais submergia no lamaçal. Até que se ouve uma voz a dizer:

Boa noite cavaleiro! Não estais de ronda nas minhas terras, não está em batalha nem por ela e nem em defesa dela, não está a procura de abrigo, então, o que fazes nela sem minha permissão ? Era Nanã Buruquê, a senhora dos Orixás, a senhora do equilíbrio, do eixo, da sabedoria.

Ora velha respondia Ogum E eu preciso de autorização para pisar aonde meus pés me levarem? Não sabes quem eu sou nada temo tudo enfrento, luto e defendo, sou fiel, sou verdadeiro, então por que preciso que me direcionem por onde eu andar?

Nanã diz a Ogum: Tudo o que Zambi nos dar ele é o único que pode tirar, mas, somos nós que muito perdemos o que nos é dado. Veja você mesmo cavaleiro andante, há um dia vivia a glória, o resultado das batalhas conquistadas de enobrecia, a força do teu nome percorria os quatro cantos da terra, destemido e admirado por todos, menos para quem vivia contigo. Do que adiantava tanta luta, tanta guerra, tantas batalhas, se não conseguia se livrar delas a cada fim. Sempre voltava ao seio do lar com a luta ainda presente e quanto não mais a tinha, buscava-a em outros campos, deixando tudo e a todos que lhe tinham ao redor e assim sempre acabava deixando a si mesmo. Quando Iansã o deixou, tu já não vivia com ela e nem ela contigo. Lembra qual foi a última vez que olhaste ao sorriso da bela moça? Os detalhes que antes era percebido e agora nem fazem parte do teu convívio. E quantas noites em campo tu planejava qual seria a melhor estratégia para o amanhecer, enquanto Iansã vagava aos ventos esperando que o nascer do sol lhe desse nova direção.

-Mas perdeu não é Ogum, e derrota não existe para ti não é Ogum? Se perdeste, foi para ti mesmo, e hoje te mostro que a força da tua espada não vence a tudo, e te mostro que a tua robustez e o teu isolamento são fracos e não te valem quanto realmente precisas. Levanta-te, tenta sair! Quanto mais força empregar, mais será sucumbido. Agora olha para cima, a lua já não ver mais, ninguém estar ao teu lado, meus os animais de teu irmão estão chamando por ti, nem teu alazão, nem a tua casa, nem os teus guerreiros, nem a tua espada te vale agora, é o fim, e por tantos que fez, para ti e para os teus de nada valeu.

Então me ajuda velha! Clamou Ogum.

Se está preparado realmente para ser ajudado, deverás deixar no lodo muito de ti falou Nanã. Ogum neste momento não se viu derrotado, se viu em necessidade, em apelo, e disse: Eu sei Nanã! Agora eu sei e vejo com meus olhos o caminho a seguir sem precisar que a lua me ilumine Sei que a cada um dos meus eu deva me valer, como os meus devem ser valer por mim. Sei que perdi Iansã, e lutarei pela sua felicidade, a mesma que não a dei. Hoje eu vejo o quanto a minha vida já havia ceifado, e aqui iria partir apenas a matéria. Entregarei a minha força a vida Nanã e lutarei por ela, entregarei a minha espada ao fraco Nanã e lutarei por eles, e não me esquecerei de mim e dos meus. Entregarei a minha vida a quem feliz eu possa fazer e feliz eu possa ser. Enquanto eu caminhar nessa terra, seguirei os caminhos do meu coração e não dos meus pés. Buscarei a felicidade e não há razão. Ouvirei os meus impulsos para agir e não para destruir. Se me tiraste daqui Nanã, saberei que nem tudo eu posso fazer, mas para tudo eu posso melhorar. E Nanã estendeu a sua mão a Ogum, e sem nenhum esforço de força o levantou do lamaçal e disse: Agora vá meu cavaleiro! Eu não preciso e não uso a força do aço para nada, porque eu sei manipular a terra e a água desde o princípio do mundo, mas tu terás nela, a tua espada, por esmero, a força maior. Sinta-a como parte de seu corpo e corte tudo o de negativo ao teu redor.

Antes de sair de frente a Nanã, Ogum fez um juramento: A minha espada brilhará a cada raiar do dia, mas agora não apenas para mim, mas para todos que são meus, enquanto eu sei que os meus empunharão as suas espadas para mim.

E assim, Ogum volta as suas terras. Ao chegar, todos os olhares lhe são de temor, aguardando a reação do seu general. Ogum encontra-se num canto da cocheira o seu alazão que havia retornado só e chora. Eu hoje sou Ogum, vencedor de demandas, estarei nas terras de Aruanda em combate as forças do mal. Quem estiver comigo, eu e vós seremos um só de hoje em diante, e quem não estiver comigo, mas estiver dentro da lei, comigo também estará. Que Zambi traga os ventos de Iansã pela luz do sol de Xangô sempre que precisarmos e não apenas a minha espada, mas a de todos nós seja servida a necessidade de quem precisar. Por amor, por união, por justiça.

Passados dias, Ogum já havia retomado a alegria da sua aldeia. Agora, nem sempre era ele que ia aos combates, muitos passaram a ir por ele, quando Oxossi seu irmão o visita. Vejo Ogum como suas terras estão floridas, como os campos estão prospero, como inspira paz, mas vejo um coração ainda triste, choras por Iansã?

perguntou seu irmão Oxossi.

Não! Não por Iansã. sei o quanto ela esta bem e o quanto hoje é feliz em sua aldeia com Xangô e agora sei que posso contar com ambos em minhas necessidades, como ambos sabem que podem contar comigo. Recuperei a minha aldeia, a confiança e a alegria dos meus, mas me sinto só, mesmo cercado de muitos respondeu Ogum.

Oras, então não chores mais. Sabes que nas terras ao lado da sua é a aldeia de Oxum? Tão semelhante a ti meu irmão ela também vive só, vai até a beira do rio todo entardecer chorar por viver só. Ella é muito apegada a sua aldeia e nunca teve o encontro do amor, acredita sempre que a união é eterna e para sempre, por isso não abriu ainda seu coração. Chora cansada por vezes por tamanha luta que tem de cuidar dos seus, mas é a mãe mais generosa que existe em Aruanda. Se algo grande a ofertá-la como forma de lhe mostrar que estaria disposto ao seu lado viver pela eternidade, quem sabe a conquista! diz Oxossi.

O que seria algo grande meu irmão? Minha força, minha coragem, minha destreza e meu coração? perguntou Ogum.

Tudo isso junto respondeu Oxossi. Vá e busque teu alazão, e nele suba até a pedra grande e busque-a para Oxum, como prova que foi preciso empregar por ela a tua força, a tua coração, a tua destreza e o teu coração. Mas lá em cima mora a maior força maligna existente! Como poderei eu só ser contra ele? perguntou Ogum. Eu sei disso, respondeu Oxossi. E por isso mesmo lhe entregarei meu escudo, meu broquel, para usá-lo em defesa contra ele. Ele se mostrará como um dragão cuspidor de fogo e lançará as chamas contra ti, levanta o escudo e proteja-se no tempo certo aonde a chama rebaterá sobre ele, será a grande o oportunidade em fincar a tua espada sobre ele. Vencendo-o, desça a pedra grande e na terra estarei te esperando para carregá-la contigo até Oxum.

Mas se faço tudo isso e Oxum não me aceitar. Como saberei que tudo que estarei me empenhado realmente conseguirei? perguntou Ogum.

Lembra-se do que disseste a Nanã, que daquele momento em diante seguiria os caminhos de teu coração e não dos teus pés, então assim o faça, siga a vontade de teu coração e deixa que eu falarei com Oxum sobre o que irás realizar por ela, com certeza ela ficará sensibilizada com este ato e te aceitará respondeu Oxossi. E assim fez Ogum, e como havia lhe dito seu irmão, assim também o fez, esperou o momento certo para levantar o escudo que rebateu o fogo do dragão, fincou a sua espada nele e o tirou da pedra grande. Com muita força trouxe a pedra grande para terra aonde Oxossi o esperava ao pé do Humaitá para ajudá-lo a carregar até as terras de Oxum. Caminharam por entre as matas, subiram por entre as pedreiras onde Xangô e Iansã admiravam seu esforço. Passaram ao lado do pântano e Nanã lhe sorriu, até que chegaram à entrada das terras de Oxum. Nessa hora seu irmão lhe deixou só para que este estivesse com Oxum e pudesse lhe mostrar o que trazia para ela. E Ogum deu a lua para Oxum iluminando toda a sua aldeia e pediu para que ela o aceitasse ao seu lado e juntos formarem uma linda nação.

E assim Zambi se alegrou e de tanta alegria que a terra vivia, Zambi deu aos dois Oxumaré, mais essa é uma outra história que um dia vou lhes contar.

Terminou dizendo, filha: mito, lendas, histórias? Quem disse que a verdade não está nelas também? Hehehehehe!!!

Saravá Pai Joaquim da Guiné!

FLÁVIO FERREIRA DIRETOR DE LITURGIA

15 de Novembro – Aniversário da Umbanda

Zélio Fernandino de Moraes nasceu no dia 10 de abril de 1891, no distrito de Neves, município de São Gonçalo Rio de Janeiro. Aos dezessete anos quando estava se preparando para servir as Forças Armadas através da Marinha aconteceu um fato curioso: começou a falar em tom manso e com um sotaque diferente da sua região, parecendo um senhor com bastante idade. A princípio, a família achou que houvesse algum distúrbio mental e o encaminhou ao seu tio, Dr. Epaminondas de Moraes, médico psiquiatra e diretor do Hospício da Vargem Grande. Após alguns dias de observação e não encontrando os seus sintomas em nenhuma literatura médica sugeriu à família que o encaminhassem a um padre para que fosse feito um ritual de exorcismo, pois desconfiava que seu sobrinho estivesse possuído pelo demônio.

Procuraram então também um padre da família que após fazer ritual de exorcismo não conseguiu nenhum resultado. Tempos depois Zélio foi acometido por uma estranha paralisia, para o qual os médicos não conseguiram encontrar a cura. Passado algum tempo, num ato surpreendente Zélio ergueu-se do seu leito e declarou: Amanhã estarei curado. No dia seguinte começou a andar como se nada tivesse acontecido. Nenhum médico soube explicar como se deu a sua recuperação. Sua mãe, D. Leonor de Moraes, levou Zélio a uma curandeira chamada D. Cândida, figura conhecida na região onde morava e que incorporava o espírito de um preto velho chamado Tio Antônio.

Tio Antônio recebeu o rapaz e fazendo as suas rezas lhe disse que possuía o fenômeno da mediunidade e deveria trabalhar com a caridade. O Pai de Zélio de Moraes Sr. Joaquim Fernandino Costa, apesar de não freqüentar nenhum centro espírita, já era um adepto do espiritismo, praticante do hábito da leitura de literatura espírita. No dia 15 de novembro de 1908, por sugestão de um amigo de seu pai, Zélio foi levado a Federação Espírita de Niterói. Chegando à Federação e convidados por José de Souza, dirigentes daquela Instituição sentaram-se à mesa. Logo em seguida, contrariando as normas do culto realizado, Zélio levantou-se e disse que ali faltava uma flor. Foi até o jardim apanhou uma rosa branca e colocou-a no centro da mesa onde se realizava o trabalho. Tendo-se iniciado uma estranha confusão no local ele incorporou um espírito e simultaneamente diversos médiuns presentes apresentaram incorporações de caboclos e pretos velhos.

Advertidos pelo dirigente do trabalho a entidade incorporada no rapaz perguntou:

“-Por que repelem a presença dos citados espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens. Seria por causa de suas origens sociais e da cor”?

Após um vidente ver a luz que o espírito irradiava perguntou:
-Por que o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados? Por que fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual o seu nome meu irmão”?
Ele responde:
Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho, para dar início a um culto em que pretos e índios poderão dar sua mensagem e, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome que seja este: “CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS”, porque não há caminhos fechados para mim.
O vidente ainda pergunta:
-Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto?

Novamente ele responde:
-Colocarei uma condessa em cada colina desta cidade que atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei”.

Depois de algum tempo todos ficaram sabendo que o jesuíta que o médium verificou pelos resquícios de sua veste no espírito, em sua última encarnação foi o Padre Gabriel Malagrida.

No dia 16 de novembro de 1908, na Rua Floriano Peixoto, 30 – Neves – São Gonçalo – RJ, aproximando-se das 20:00 horas, estavam presentes os membros da Federação Espírita, parentes e vizinhos e do lado de fora uma multidão de desconhecidos. Pontualmente as 20:00 horas o Caboclo das Sete Encruzilhadas desceu e usando as seguintes palavras iniciou o culto:
– Aqui se inicia um novo culto em que os espíritos de pretos velhos africanos, que haviam sido escravos e que desencarnaram não encontram campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase que exclusivamente para os trabalhos de feitiçaria e os índios nativos da nossa terra, poderão trabalhar em benefícios dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor, raça, sexo, credo ou posição social. A pratica da caridade no sentido do amor fraterno será a característica principal deste culto, que tem base no Evangelho de Jesus e como mestre supremo Cristo.

Em outubro de 1941, reuni-se o 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda, presidido por Zélio Fernandino (neste congresso recebemos a mensagem das Sete Lágrimas de um Preto-Velho trazida por Pai Antônio). Outros congressos aconteceram, posteriormente, e retiraram acertadamente o nome espiritismo que, de fato, pertence aos espíritas brasileiros, os quais seguem a respeitável doutrina codificada por Alan Kardec. Em suma, o espírita pratica o espiritismo; na Umbanda pratica-se o Umbandismo.