Histórias de Preto Velho

O Pretos velhos contam uma antiga história que quando IANSÃ, Rainha dos ventos e tempestades, estava com seu coração confuso, cheio de mágoa e tristeza, ela ia se lavar nas águas doces de OXUM.

Ela pedia colo e conselhos, pedia conforto e um pouco do amor incondicional de Mamãe.

Quando IANSÃ chegava, OXUM se alegrava e a recebia de braços abertos, enfeitava seus lindos cabelos com o primeiro desabrochar das rosas vermelhas mais lindas que encontrava e pedia aos passarinhos que cantassem suas melodias mais doces.

OXUM envolvia sua querida irmã com seus raios dourados e esperava pacientemente que se acalmasse e assim pudesse contar tudo o que se escondia naquele coração tão amado.

Depois de um longo tempo em que IANSÃ aliviava seu coração e encontrava em OXUM o retorno para suas emoções e o equilíbrio necessário, algo misterioso sempre acontecia.

Quem olhasse de longe poderia ver o deslumbrante e a perfeição dos movimentos que a água e o vento geravam, plenos como em uma dança, as duas energias giravam e giravam, uma alimentando e elevando a outra.

O que acontecia é que Mamãe OXUM se alimentava da ira e tristeza de OYÁ, Se fortalecia, se iluminava e conseguia todo o conforto e energia necessários para encontrar o caminho do mar, principalmente para superar suas próprias dores e tristezas.

Uma protegia a outra, uma alimentava a outra e juntas eram capazes de trazer força e amor a todos que por elas clamavam… Que a força e a proteção de Oxum e Iansã esteja sempre com vocês!

Omolu na Umbanda

Não raro, discriminado em muitos Terreiros de Umbanda, Omolú é cultuado como o Orixá residente no cemitério que é o responsável pela triagem dos mortos. Normalmente quando um médium incorpora sua irradiação, tem sua cabeça coberta por um pano em sinal de tradição e respeito, pois o falangeiro geralmente nunca mostra o rosto em razão de suas feridas, algo que é explicado pela sua mitologia. Os Exús que atuam no cemitério lhes devem obediência. A falange mais conhecida é a dos CAVEIRAS, empregados diretos da influência deste Orixá. Anteriormente muito temido atualmente reverenciado na maioria dos Terreiros de Umbanda.

No dia de finados, é fundamental que o Umbandista, ao realizar o culto ao Orixá Omolú, vibre seus pensamentos nos antepassados, seus parentes desencarnados e as pessoas mais caras que partiram, solicitando que ilumine a todos, pois se algum deles estiver precisando de ajuda por estar perdido nas suas questões emocionais e ainda não ter alcançado a luz, pode ser oportuno de acontecer este resgate, e, aquele que já esteja em situações privilegiadas, então se sentirá gratificado pelas vibrações, além de ser o momento de demonstrar gratidão aos antepassados que promoveram a sua passagem presente.

Entendemos que ele é a divindade do “FIM”, logo ele não está presente apenas na tão temida morte física. Sua vibração se faz presente centena de vezes durante nossa vida, por exemplo, o fim de um relacionamento amoroso é o rompimento de cordões emocionais e o fim de um ciclo de convivência entre duas pessoas. Neste momento de finalização lá está presente a sua vibração para encaminhar os envolvidos em seus caminhos individuais.
Assim também nas mudanças de emprego, de moradia, fim de amizade, etc.

A Lenda dos orixás – Pai Joaquim da Guiné

Há muito tempo atrás existia uma linda aldeia chamada Afé. Nela viviam Ogum, Iansã e todos os que formaram a aldeia junto a Ogum, que nasceram nela e os que foram socorridos por ela também.”

Quando Ogum nela estava, tudo era plena harmonia, mas pouco a pouco Ogum foi se distanciando da sua tribo e empregando-se em batalhas que nem sempre havia a necessidade de sua autoridade e liderança presente, mas como era possível resistir a uma batalha a um novo desafio, se assim o fosse, não seria Ogum. Pode ser também que o afastamento foi dado, além é claro das batalhas gloriosas, pela confiança em Iansã como chefe de sua tribo e por saber que mesmo não sendo adepta aos afazeres domésticos, ela detinham a todos em suas orientações e conduzia como ninguém a vida dos seus. Mas, o que para Ogum além de obrigação era também prazeroso, ficava cada vez mais fadado para Iansã. Ela se encontra sempre sozinha e não era raro vê-la afastada dos cuidados a tribo, vagando pelas matas, rodeadas em seus pensamentos de uma vida livre. Foi numa dessas andanças sozinha que ela se encontra com Xangô.

Xangô, sua fama já era conhecida por ser o justiceiro e por não se prender a tribo alguma, quando precisava de guarita, subia até o alto das montanhas e se alojava em baixo das pedreiras, isso quando não era agraciado e achava uma gruta, o que claro era bem melhor. Xangô homem jovem, independente, liberto de prazeres que não fosse a ajuda aos menores, era ele o conciliador, era ele o apaziguador, mas também era ele o fogo a consumir quem não andava na Lei. Vagava pelas terras da Lemúria e vivia por ajudar a erguer tribos derrotadas ou em necessidades. Ensinava o cultivo e a criação de subsistência, chamava ao diálogo, mostrava que não precisava nunca fugir e sim se estruturar, nunca guerreava. E por essa sua fama, além da sua beleza e nobreza e da carência vivida por Iansã, ora abandonada constantemente por Ogum e suas batalhas, não foi difícil ela se entregar em paixão por ele. A troca do olhar foi mais do que suficiente para enamorar-se. Ele por não querer viver mais só e ela pela mesma intenção. Assim, o que muitos podem julgar como traição, entendemos que na verdade Iansã foi resgatar sua vida, já não havia como viver assim e muitos menos poderia saber se Ogum um dia voltaria, então partiram e muitos os acompanharam, e tão distantes as águas de Iemanjá os levaram das terras de Ogum e formaram a sua tribo.

Mas, Ogum voltou! E com grande ira recebeu a notícia que Iansã a abandonará e deixava para trás também toda a sua aldeia. O cavaleiro alado não suportou tamanho golpe, de mãos ao seu cavalo correu, e correu, e correu, mas não corria atrás de Iansã e nem corria atrás de Xangô, perdeu-se em seus sentimentos, só existia a ira em si, faltou à razão. Não questionou, mas também não queria ouvir questionamentos, só querer correr, até onde seu corpo suportasse. Já sem noção de onde estava e o quanto havia percorrido, deparou-se de frente ao pântano, era as terras de Nanã. Sabia que ali ninguém entrava sem permissão da velha senhora, mas razão e raciocínio não fazia parte de Ogum nesse momento, tão irado quanto estava ao sair a galope de sua aldeia, agora era tão vazio como ele se sentia e assim adentrou ao lamaçal. Logo não demorou e percebeu que o seu alado não marchava mais, desceu dele e continuou a caminhar a pé.

Poucos passos foram necessários para que a terra começasse a tragá-lo e a ira lhe recaía novamente: Velha cadê você? Se me ouves, eu sou Ogum, General de Exército e Senhor das Batalhas, me tira daqui!

E o Senhor Ogum quanto mais tentava sair mais submergia no lamaçal. Até que se ouve uma voz a dizer:

Boa noite cavaleiro! Não estais de ronda nas minhas terras, não está em batalha nem por ela e nem em defesa dela, não está a procura de abrigo, então, o que fazes nela sem minha permissão ? Era Nanã Buruquê, a senhora dos Orixás, a senhora do equilíbrio, do eixo, da sabedoria.

Ora velha respondia Ogum E eu preciso de autorização para pisar aonde meus pés me levarem? Não sabes quem eu sou nada temo tudo enfrento, luto e defendo, sou fiel, sou verdadeiro, então por que preciso que me direcionem por onde eu andar?

Nanã diz a Ogum: Tudo o que Zambi nos dar ele é o único que pode tirar, mas, somos nós que muito perdemos o que nos é dado. Veja você mesmo cavaleiro andante, há um dia vivia a glória, o resultado das batalhas conquistadas de enobrecia, a força do teu nome percorria os quatro cantos da terra, destemido e admirado por todos, menos para quem vivia contigo. Do que adiantava tanta luta, tanta guerra, tantas batalhas, se não conseguia se livrar delas a cada fim. Sempre voltava ao seio do lar com a luta ainda presente e quanto não mais a tinha, buscava-a em outros campos, deixando tudo e a todos que lhe tinham ao redor e assim sempre acabava deixando a si mesmo. Quando Iansã o deixou, tu já não vivia com ela e nem ela contigo. Lembra qual foi a última vez que olhaste ao sorriso da bela moça? Os detalhes que antes era percebido e agora nem fazem parte do teu convívio. E quantas noites em campo tu planejava qual seria a melhor estratégia para o amanhecer, enquanto Iansã vagava aos ventos esperando que o nascer do sol lhe desse nova direção.

-Mas perdeu não é Ogum, e derrota não existe para ti não é Ogum? Se perdeste, foi para ti mesmo, e hoje te mostro que a força da tua espada não vence a tudo, e te mostro que a tua robustez e o teu isolamento são fracos e não te valem quanto realmente precisas. Levanta-te, tenta sair! Quanto mais força empregar, mais será sucumbido. Agora olha para cima, a lua já não ver mais, ninguém estar ao teu lado, meus os animais de teu irmão estão chamando por ti, nem teu alazão, nem a tua casa, nem os teus guerreiros, nem a tua espada te vale agora, é o fim, e por tantos que fez, para ti e para os teus de nada valeu.

Então me ajuda velha! Clamou Ogum.

Se está preparado realmente para ser ajudado, deverás deixar no lodo muito de ti falou Nanã. Ogum neste momento não se viu derrotado, se viu em necessidade, em apelo, e disse: Eu sei Nanã! Agora eu sei e vejo com meus olhos o caminho a seguir sem precisar que a lua me ilumine Sei que a cada um dos meus eu deva me valer, como os meus devem ser valer por mim. Sei que perdi Iansã, e lutarei pela sua felicidade, a mesma que não a dei. Hoje eu vejo o quanto a minha vida já havia ceifado, e aqui iria partir apenas a matéria. Entregarei a minha força a vida Nanã e lutarei por ela, entregarei a minha espada ao fraco Nanã e lutarei por eles, e não me esquecerei de mim e dos meus. Entregarei a minha vida a quem feliz eu possa fazer e feliz eu possa ser. Enquanto eu caminhar nessa terra, seguirei os caminhos do meu coração e não dos meus pés. Buscarei a felicidade e não há razão. Ouvirei os meus impulsos para agir e não para destruir. Se me tiraste daqui Nanã, saberei que nem tudo eu posso fazer, mas para tudo eu posso melhorar. E Nanã estendeu a sua mão a Ogum, e sem nenhum esforço de força o levantou do lamaçal e disse: Agora vá meu cavaleiro! Eu não preciso e não uso a força do aço para nada, porque eu sei manipular a terra e a água desde o princípio do mundo, mas tu terás nela, a tua espada, por esmero, a força maior. Sinta-a como parte de seu corpo e corte tudo o de negativo ao teu redor.

Antes de sair de frente a Nanã, Ogum fez um juramento: A minha espada brilhará a cada raiar do dia, mas agora não apenas para mim, mas para todos que são meus, enquanto eu sei que os meus empunharão as suas espadas para mim.

E assim, Ogum volta as suas terras. Ao chegar, todos os olhares lhe são de temor, aguardando a reação do seu general. Ogum encontra-se num canto da cocheira o seu alazão que havia retornado só e chora. Eu hoje sou Ogum, vencedor de demandas, estarei nas terras de Aruanda em combate as forças do mal. Quem estiver comigo, eu e vós seremos um só de hoje em diante, e quem não estiver comigo, mas estiver dentro da lei, comigo também estará. Que Zambi traga os ventos de Iansã pela luz do sol de Xangô sempre que precisarmos e não apenas a minha espada, mas a de todos nós seja servida a necessidade de quem precisar. Por amor, por união, por justiça.

Passados dias, Ogum já havia retomado a alegria da sua aldeia. Agora, nem sempre era ele que ia aos combates, muitos passaram a ir por ele, quando Oxossi seu irmão o visita. Vejo Ogum como suas terras estão floridas, como os campos estão prospero, como inspira paz, mas vejo um coração ainda triste, choras por Iansã?

perguntou seu irmão Oxossi.

Não! Não por Iansã. sei o quanto ela esta bem e o quanto hoje é feliz em sua aldeia com Xangô e agora sei que posso contar com ambos em minhas necessidades, como ambos sabem que podem contar comigo. Recuperei a minha aldeia, a confiança e a alegria dos meus, mas me sinto só, mesmo cercado de muitos respondeu Ogum.

Oras, então não chores mais. Sabes que nas terras ao lado da sua é a aldeia de Oxum? Tão semelhante a ti meu irmão ela também vive só, vai até a beira do rio todo entardecer chorar por viver só. Ella é muito apegada a sua aldeia e nunca teve o encontro do amor, acredita sempre que a união é eterna e para sempre, por isso não abriu ainda seu coração. Chora cansada por vezes por tamanha luta que tem de cuidar dos seus, mas é a mãe mais generosa que existe em Aruanda. Se algo grande a ofertá-la como forma de lhe mostrar que estaria disposto ao seu lado viver pela eternidade, quem sabe a conquista! diz Oxossi.

O que seria algo grande meu irmão? Minha força, minha coragem, minha destreza e meu coração? perguntou Ogum.

Tudo isso junto respondeu Oxossi. Vá e busque teu alazão, e nele suba até a pedra grande e busque-a para Oxum, como prova que foi preciso empregar por ela a tua força, a tua coração, a tua destreza e o teu coração. Mas lá em cima mora a maior força maligna existente! Como poderei eu só ser contra ele? perguntou Ogum. Eu sei disso, respondeu Oxossi. E por isso mesmo lhe entregarei meu escudo, meu broquel, para usá-lo em defesa contra ele. Ele se mostrará como um dragão cuspidor de fogo e lançará as chamas contra ti, levanta o escudo e proteja-se no tempo certo aonde a chama rebaterá sobre ele, será a grande o oportunidade em fincar a tua espada sobre ele. Vencendo-o, desça a pedra grande e na terra estarei te esperando para carregá-la contigo até Oxum.

Mas se faço tudo isso e Oxum não me aceitar. Como saberei que tudo que estarei me empenhado realmente conseguirei? perguntou Ogum.

Lembra-se do que disseste a Nanã, que daquele momento em diante seguiria os caminhos de teu coração e não dos teus pés, então assim o faça, siga a vontade de teu coração e deixa que eu falarei com Oxum sobre o que irás realizar por ela, com certeza ela ficará sensibilizada com este ato e te aceitará respondeu Oxossi. E assim fez Ogum, e como havia lhe dito seu irmão, assim também o fez, esperou o momento certo para levantar o escudo que rebateu o fogo do dragão, fincou a sua espada nele e o tirou da pedra grande. Com muita força trouxe a pedra grande para terra aonde Oxossi o esperava ao pé do Humaitá para ajudá-lo a carregar até as terras de Oxum. Caminharam por entre as matas, subiram por entre as pedreiras onde Xangô e Iansã admiravam seu esforço. Passaram ao lado do pântano e Nanã lhe sorriu, até que chegaram à entrada das terras de Oxum. Nessa hora seu irmão lhe deixou só para que este estivesse com Oxum e pudesse lhe mostrar o que trazia para ela. E Ogum deu a lua para Oxum iluminando toda a sua aldeia e pediu para que ela o aceitasse ao seu lado e juntos formarem uma linda nação.

E assim Zambi se alegrou e de tanta alegria que a terra vivia, Zambi deu aos dois Oxumaré, mais essa é uma outra história que um dia vou lhes contar.

Terminou dizendo, filha: mito, lendas, histórias? Quem disse que a verdade não está nelas também? Hehehehehe!!!

Saravá Pai Joaquim da Guiné!

FLÁVIO FERREIRA DIRETOR DE LITURGIA

15 de Novembro – Aniversário da Umbanda

Zélio Fernandino de Moraes nasceu no dia 10 de abril de 1891, no distrito de Neves, município de São Gonçalo Rio de Janeiro. Aos dezessete anos quando estava se preparando para servir as Forças Armadas através da Marinha aconteceu um fato curioso: começou a falar em tom manso e com um sotaque diferente da sua região, parecendo um senhor com bastante idade. A princípio, a família achou que houvesse algum distúrbio mental e o encaminhou ao seu tio, Dr. Epaminondas de Moraes, médico psiquiatra e diretor do Hospício da Vargem Grande. Após alguns dias de observação e não encontrando os seus sintomas em nenhuma literatura médica sugeriu à família que o encaminhassem a um padre para que fosse feito um ritual de exorcismo, pois desconfiava que seu sobrinho estivesse possuído pelo demônio.

Procuraram então também um padre da família que após fazer ritual de exorcismo não conseguiu nenhum resultado. Tempos depois Zélio foi acometido por uma estranha paralisia, para o qual os médicos não conseguiram encontrar a cura. Passado algum tempo, num ato surpreendente Zélio ergueu-se do seu leito e declarou: Amanhã estarei curado. No dia seguinte começou a andar como se nada tivesse acontecido. Nenhum médico soube explicar como se deu a sua recuperação. Sua mãe, D. Leonor de Moraes, levou Zélio a uma curandeira chamada D. Cândida, figura conhecida na região onde morava e que incorporava o espírito de um preto velho chamado Tio Antônio.

Tio Antônio recebeu o rapaz e fazendo as suas rezas lhe disse que possuía o fenômeno da mediunidade e deveria trabalhar com a caridade. O Pai de Zélio de Moraes Sr. Joaquim Fernandino Costa, apesar de não freqüentar nenhum centro espírita, já era um adepto do espiritismo, praticante do hábito da leitura de literatura espírita. No dia 15 de novembro de 1908, por sugestão de um amigo de seu pai, Zélio foi levado a Federação Espírita de Niterói. Chegando à Federação e convidados por José de Souza, dirigentes daquela Instituição sentaram-se à mesa. Logo em seguida, contrariando as normas do culto realizado, Zélio levantou-se e disse que ali faltava uma flor. Foi até o jardim apanhou uma rosa branca e colocou-a no centro da mesa onde se realizava o trabalho. Tendo-se iniciado uma estranha confusão no local ele incorporou um espírito e simultaneamente diversos médiuns presentes apresentaram incorporações de caboclos e pretos velhos.

Advertidos pelo dirigente do trabalho a entidade incorporada no rapaz perguntou:

“-Por que repelem a presença dos citados espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens. Seria por causa de suas origens sociais e da cor”?

Após um vidente ver a luz que o espírito irradiava perguntou:
-Por que o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados? Por que fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual o seu nome meu irmão”?
Ele responde:
Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho, para dar início a um culto em que pretos e índios poderão dar sua mensagem e, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome que seja este: “CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS”, porque não há caminhos fechados para mim.
O vidente ainda pergunta:
-Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto?

Novamente ele responde:
-Colocarei uma condessa em cada colina desta cidade que atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei”.

Depois de algum tempo todos ficaram sabendo que o jesuíta que o médium verificou pelos resquícios de sua veste no espírito, em sua última encarnação foi o Padre Gabriel Malagrida.

No dia 16 de novembro de 1908, na Rua Floriano Peixoto, 30 – Neves – São Gonçalo – RJ, aproximando-se das 20:00 horas, estavam presentes os membros da Federação Espírita, parentes e vizinhos e do lado de fora uma multidão de desconhecidos. Pontualmente as 20:00 horas o Caboclo das Sete Encruzilhadas desceu e usando as seguintes palavras iniciou o culto:
– Aqui se inicia um novo culto em que os espíritos de pretos velhos africanos, que haviam sido escravos e que desencarnaram não encontram campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase que exclusivamente para os trabalhos de feitiçaria e os índios nativos da nossa terra, poderão trabalhar em benefícios dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor, raça, sexo, credo ou posição social. A pratica da caridade no sentido do amor fraterno será a característica principal deste culto, que tem base no Evangelho de Jesus e como mestre supremo Cristo.

Em outubro de 1941, reuni-se o 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda, presidido por Zélio Fernandino (neste congresso recebemos a mensagem das Sete Lágrimas de um Preto-Velho trazida por Pai Antônio). Outros congressos aconteceram, posteriormente, e retiraram acertadamente o nome espiritismo que, de fato, pertence aos espíritas brasileiros, os quais seguem a respeitável doutrina codificada por Alan Kardec. Em suma, o espírita pratica o espiritismo; na Umbanda pratica-se o Umbandismo.

13 de maio – Dia da abolição da escravatura e dia dos Pretos Velhos

13/05 – DIA DOS PRETO-VELHOS
DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA – 126 ANOS DE LIBERDADE

Na época em que os portugueses começaram a colonização do Brasil, não existia mão-de-obra para a realização de trabalhos manuais. Diante disso, eles procuraram usar o trabalho dos índios nas lavouras; entretanto, esta escravidão não pode ser levada adiante, pois os religiosos se colocaram em defesa dos índios condenando sua escravidão. Assim, os portugueses passaram a fazer o mesmo que os demais povos europeus daquela época. Eles foram à busca de negros na África para submetê-los ao trabalho escravo em suas colônias. Deu-se, assim, a entrada dos escravos no Brasil.

Os negros, trazidos do continente africano, eram transportados dentro dos porões dos navios negreiros. Apesar de esta prática ser considerada “normal” do ponto de vista da maioria, havia aqueles que eram contra este tipo de abuso. Estes eram os abolicionistas (grupo formado por literatos, religiosos, políticos, jornalistas e pessoas do povo); contudo, esta prática permaneceu por quase 300 anos. O principal fator que manteve a escravidão por um longo período foi o econômico. A economia do país contava somente com o trabalho escravo para realizar as tarefas da roça e outras tão pesadas quanto estas. As providências para a libertação dos escravos deveriam ser tomadas lentamente. A partir de 1870, a região sul do Brasil passou a empregar assalariados brasileiros e imigrantes estrangeiros; no Norte, as usinas substituíram os primitivos engenhos, fato que permitiu a utilização de um número menor de escravos. Já nas principais cidades, era grande o desejo do surgimento de indústrias. O primeiro passo foi dado em 1850, com a extinção do tráfico negreiro. Vinte anos mais tarde, foi declarada a Lei do Ventre-Livre (de 28 de setembro de 1871). Esta lei tornava livres os filhos de escravos que nascessem a partir de sua promulgação. Em 1885, foi aprovada a lei Saraiva Cotegipe ou dos Sexagenários que beneficiava os negros de mais de 65 anos. Mas somente em 13 de maio de 1888, através da Lei Áurea, que a liberdade total finalmente foi alcançada pelos negros no Brasil. Esta lei, assinada pela Princesa Isabel, abolia de vez a escravidão no Brasil.

Salve a Princesa Branca!
Salve a Liberdade!
Salve o Dia 13 de Maio!

Preto Velho A mais carismática entidade dos Terreiros de Umbanda

“Sem dúvida alguma a mais carismática entidade que povoa os Terreiros de Umbanda”

Surgiu como a peça fundamental nas orientações doutrinárias dos ritos da nova religião, desde a ordem dos trabalhos, o uso das vestimentas brancas, das guias (como a 1ª, chamada de Guia do Pai Antônio), do 1º ponto cantado de Umbanda: “Minha cachimbá tá no toco, manda murequi buscá” e a influência direta dos Orixás em nossos trabalhos. Foi responsável também pelo chamado a Ibeijada, aos Orientais e aos Guardiões para trabalharem em comunhão na mesma seara. Além de trazer a grandiosidade da cultura africana em nossa religião.

A mística dos Preto-Velhos é fruto de condições e circunstâncias únicas em terras brasileiras. A sofrida vida dos escravos, trazidos da África, já bastante documentada e comentada, fazia com que os indivíduos, em função do penoso e extenuante trabalho a que eram submetidos, somado aos maus tratos, vivessem, em média, somente sete anos após sua chegada ao Brasil. A partir das mudanças no panorama econômico brasileiro, como a decadência do ciclo da cana-de-açúcar e a redução da atividade mineradora, uma grande leva de escravos foram migrados para os centros urbanos, passando então a levar uma vida mais amena e conseguindo ter uma expectativa de vida mais longa.

Mesmo assim as condições de salubridade, nesta época, não favoreciam a longevidade, mas surge a partir desse momento a figura daquele escravo que, apesar das suas condições de vida, alcança idade avançada, personificando o patriarca da raça, cuja sapiência parece lhe ser conferida pelos cabelos brancos. Nas sociedades tradicionais, a figura do idoso é um símbolo da experiência de vida e um pilar da cultura do grupo a que pertence; aquele que deve ser ouvido e cujos conselhos devem ser seguidos.

As histórias que ouvimos a respeito deles são bastante variadas e pitorescas. Dizem que em vida, foram grandes sacerdotes do culto dos Orixás; que viveram muitos anos devido a seus conhecimentos mágicos, alcançando a sabedoria e usam estes conhecimentos para os trabalhos de cura e descarrego.

Algumas histórias nos dizem também que eles foram homens comuns que alcançaram a redenção espiritual através dos suplícios do cativeiro, a sua tolerância ao martírio, sem manifestar revolta ou ódio pelos seus algozes e o profundo amor indiscriminado pela humanidade. Outros nos contam que, em vida terrena, eram homens predestinados, encarnados para assegurar um lenitivo ao sofrimento dos escravos, e que, por sua bondade e sabedoria, cativaram a amizade até dos senhores brancos, a quem também acudia com conselhos e curas, daí a sua relativa liberdade para atender, com suas mirongas ao povo pobre.

Característica típica da raça africana são o apego à vida, a alegria que se manifesta em musicalidade e uma sabedoria ancestral quase biológica, que transparece na religião. Vemos, portanto, o aparecimento de uma entidade cuja linha de trabalho é marcada pela tolerância, alegria, conhecimento, rústica simplicidade e um profundo sentimento de caridade.

Só quem sofreu na carne as desventuras da vida, podem entender ou se aproximar da compreensão do sofrimento alheio, porque é possível responder a toda violência sofrida, com amor, sem nenhum sentimento revanchista ou de vingança. Diz à lenda que foi preciso surgir um movimento nas senzalas que combatesse a prática de pagar o mal com o mal. Quando foi preciso despertar a consciência coletiva e entender a Lei Kármica que deveriam cumprir e que não adiantava, mas apelar para as Quimbandas, lançando a magia negra contra os senhores de fazendas, porque elas não os atingiam. Atingia sim aos próximos, mas aos donos não, então porque não clamar pela boa bonança afim de que através da grandiosa riqueza na terra, os donos de fazenda não encontrassem, mas necessidades em tê-los como escravos. E assim foi feito.

A organização espiritual da falange dos Preto-Velhos não é feita sobre divisões, existe apenas a busca constante da evolução para níveis de pura elevação espiritual. Eles guardam sinais particulares e individuais da origem dos elementos que a compõem. Antigos escravos, estes ainda conservam certas designações que denunciam de qual nação ou tribo africana eram oriundos. Assim encontramos Pai João D’Angola, Vovó Maria Conga, Vovô Cambinda, Pai Joaquim da Guiné, Vovô Antônio da Candonga, mas todos com uma característica em comum: a bondade e a doçura com que tratam os fiéis que os consultam, procurando um alívio para suas aflições.

Conhecidos como os psicólogos dos pobres, têm embasado em sua rica experiência de vida e transpirando a sabedoria da idade, saber como ninguém ouvir e entender os problemas de seus consulentes. O grande segredo de toda essa virtude está no perdão aos sofrimentos recebidos. Perdão este, sem discurso demagógico, que vem de um sentimento puro de desapego e humildade. Humildade!!! Talvez seja esta a palavra chave do carisma do Preto-Velho e acender a chama do Deus vivo em você, seja a principal liturgia deles.

A falange dos Preto-Velhos está dentro da “Linha das Almas”, para nós a “7ª Linha”. Seres desencarnados que alcançaram uma luz espiritual e retornam, através dos médiuns, ao plano terreno, numa missão de caridade, como que resgatando uma dívida espiritual. Grandes conhecedores de magia, de Quimbanda e dos feitiços de Exú, como das propriedades curativas das ervas, os Preto-Velhos usam também a fumaça de seus cachimbos, como os Pagés e Caboclos usam para dissolver as cargas e energias negativas que envolvem as pessoas e o ambiente. Trabalham com passes magnetizantes e indicam banhos de ervas para seus consulentes.

Quase não abrem mão de um bom trabalho feito com velas, buscando o despertar da fé de quem os procuram, porém uma de suas características mais marcantes é sua força psicológica. Sustentada pelo conhecimento espiritual, esta entidade surpreende, encanta e realiza um verdadeiro despertar da consciência. Estas entidades compõem a linha ligada aos Orixás Nanã Buroquê, Omolú e Obaluaiê, voltada para o encontro do equilíbrio da vida, a cura e lenitivo nas aflições dos pobres e das doenças e o resgate de kiumbas e/ou zombeteiros (seres com baixas vibrações), como a cura através da desobsessão.

A forma como se apresentam nos terreiros de Umbanda, através dos médiuns, é como uma pessoa muito idosa, curvada pelos anos. Às vezes apoiado em uma bengala, com dificuldade de se locomover e enxergar, com uma voz meiga, algo paternal que atrai a confiança e simpatia de quem ouve, indica, instantaneamente, a natureza da entidade. Porém diz alguns estudiosos que este comportamento é apenas uma faceta cultural, pois estas entidades, já não tendo o corpo material próprio, não poderiam se movimentar aparentando limitações físicas, isto é conhecido como “roupagem”.

Incorporam em seus médiuns, atendendo ao chamamento dos pontos cantados em sua homenagem (dependendo do ritual do terreiro, podem ser usados atabaques ou apenas cantos marcados pelo bater de palmas ou não), mas podem também “baixar” pelo magnetismo de uma oração ou de uma concentração mental dos fiéis, como relatados nos terreiros mais tradicionais que ainda conservam a liturgia simples dos primeiros terreiros de Umbanda. Geralmente sentam-se em um pequeno banquinho ou num pedaço de tronco, fumando seu cachimbo ou um cigarro de palha, queimando seus defumadores. Gostam de beber desde a cachaça branquinha até o vinho tinto bem forte (seja seco ou suave), chá de capim santo ou erva doce e não dispensa um bom café amargo. Sempre trabalham com ervas ao seu redor para realização de benzedeiras se for necessário. As contas pretas e brancas que formam as suas guias denunciam uma similaridade da natureza dos Orixás da 7ª Linha com Oxalá, mas, uma das suas preferidas, é formada pelas contas de uma semente vegetal que varia do branco leitoso ao negro. Conhecida, popularmente, como “Lágrimas de Nossa Senhora” (acredita-se que o nome tenha uma explicação religiosa que se refere aos acontecimentos do Velho Testamento, relacionados ao sofrimento), que são extraídas de uma planta esguia da família das gramíneas, entrelaçadas com crucifixos e outros fetiches africanos, como a figa de guiné, revelando a miscigenação cultural religiosa brasileira.

Não se trabalha diretamente com comida, embora eles não deixem de apreciar uma boa rapadura ou um gostoso bolinho, mas um dos pratos típicos servidos nas festas ou como oferenda aos Preto-velhos, e o mais brasileiro de todos, é a feijoada. Comida nascida no Brasil (alguns dizem nascido na França chamado de cassulê, feijoada branca) é o resultado de circunstâncias e do gênio da raça negra. O feijão preto era o mais básico e barato alimento na senzala. Plantado, colhido e preparado pelos escravos, era, às vezes, enriquecido pelas sobras de carne da cozinha da casa grande (geralmente porco). As partes que o senhor branco não comia, como os pés, a orelha, a garganta, o rabo, o focinho, etc., iam direto para o tacho coletivo e assim nascia à feijoada. Porém isto não pode ser tomado como verdade, ouvimos apenas como uma “lenda urbana”.

Carinhosamente, também chamados de Pai Preto, estes guias ensinam uma importante lição de humildade e resignação diante das adversidades da vida, sem perder a alegria e o bom humor. É comum ouvir, dos mesmos, observações jocosas a respeito dos problemas. Simplificando o que parecia complicado, dando esperanças para fortalecer psicologicamente seu consulente, porque sabem que se fraquejarmos na lida da vida, os problemas se tornam maiores e não suportamos o fardo. O discurso de um Preto-Velho em suas preleções e conselhos transpira uma mensagem cristã de perdão e compaixão, evidenciando a influência dessa religião com as citações sobre Jesus e os Santos Católicos. Uma perfeita mistura da moral cristã, com os costumes africanos e o conhecimento da medicina natural, com práticas de pajelança.

Devido ao seu modo peculiar de falar, com erros de gramática e concordância e com expressões roceiras, que demonstra a falta de instrução formal, os Preto-Velhos são menosprezados por alguns como espíritos atrasados e de pouca luz. Porém seus defensores argumentam que a exatidão do português e o lirismo das palavras não indicam a elevação espiritual de ninguém. Sustentam que grandes vultos da história da humanidade, que possuíam uma retórica exemplar e uma personalidade magnética, foram grandes genocidas, como Hitler e tantos outros e que, se pudessem dirigir alguma mensagem mediúnica poderiam parecer espíritos bastante iluminados. A qualidade da mensagem espiritual está no conteúdo, na compaixão que transparece nos atos e não na forma mecânica de sua construção.

A grande lição que ensinam estas entidades é que “colhemos o que plantamos”. E que esta é uma grande oportunidade para rever os erros cometidos, tomar consciência da nossa responsabilidade por nós mesmos na busca da felicidade.

A informalidade e humildade destas entidades fazem os fiéis se sentirem descontraídos, como se estivessem na presença de um membro da família ou um velho amigo mais sábio, que lhes atende e aconselha falando francamente, procurando ajudar a resolver seus problemas.

Quando falamos dessa grande falange, referimo-nos também às entidades do gênero feminino, que povoam os terreiros com sua graça e candura, as Pretas-Velhas, Vovó Maria Conga, Mãe Sebastiana, Velha Maria Clementina, Vovó Joaquina de Aruanda, Velha Maria Benedita de Aruanda e muitas outras que carregam a mesma história, vivida pelo gênero masculino, entidades que passaram pelas mesmas agruras e conservaram em seu íntimo a bondade e o perdão.

Toda a liturgia aparentemente caótica, nas incorporações dos Preto-Velhos, demonstra um quadro clássico da Umbanda. Os fiéis, ignorando o que seus olhos veem, enxergam não o médium, mas um velhinho negro alquebrado pela idade e pela vida, usando às vezes um chapéu de palha, outras um pano enrolado na cabeça ou nas pernas (seja branquinho ou o xadrezinho indispensável), com um galho de arruda pendurado atrás da orelha, apoiado numa bengala, fumando um cachimbo ou uma palha, rindo e bebendo no seu coité de casca de coco e, por vezes mastigando uma rapadura. É quando todas as barreiras caem e as pessoas entregam, aos seus ouvidos pacientes, suas histórias e mazelas, sem nenhum pudor de confessar fracassos ou desilusões. Por que não se sentem falando a um estranho, mas a alguém que parece conhecê-los desde o início de suas vidas.

“ADOREI AS ALMAS – É OURO SÓ”