04/12 – DIA DE IANSÃ – Iansã é um dos orixás mais conhecidos na Umbanda. Em terras africanas ela é conhecida sob o nome de Oiá (a deusa do rio Níger). Ela é um dos Orixás do Candomblé que mais penetrou no sincretismo da Umbanda, talvez por ser o único que se relaciona na liturgia mais tradicional africana, com os espíritos dos mortos (Eguns), que têm participação ativa na Umbanda, enquanto são afastados e pouco cultuados no Candomblé.

 No sincretismo católico, Iansã foi associada à figura católica de Santa Bárbara. Santa Bárbara era uma jovem virgem de beleza sem igual, nascida na cidade de Nicomédia, atual Izmit na Turquia. Filha única de um homem rico e nobre chamado Dióscoro. Por ser muito bela e, acima de tudo rica, não lhe faltavam pretendentes para casamentos, mas Bárbara não aceitava nenhum. Com receio de deixar a filha no meio da sociedade corrupta daquele tempo, Dióscoro decidiu fechá-la numa torre, local que passaria a ser sua morada. Desconcertado diante da cidade, Dióscoro estava convencido que as desfeitas da filha para não se casar, justificavam-se pelo fato dela ter ficado trancada muitos anos na torre. Então, ele permitiu que ela fosse conhecer a cidade. Durante essa visita ela teve contato com cristãos, que lhe contaram sobre os ideais de Jesus Cristo, não demorando assim a moça a se converter ao cristianismo. Este fato deixou o seu pai furioso, pois ela se recusava a partir de então a seguir a fé dos Deuses do Olimpo. Debaixo de um impulso e obedecendo à sua fé, ele a denunciou ao Prefeito Martiniano que a mandou torturar numa tentativa de fazê-la mudar de ideias, fato é claro que não aconteceu. Assim, Martiniano condenou-a a morte por “degolação”. Durante sua tortura em praça pública, uma jovem cristã de nome Juliana denunciou os nomes dos carrascos e imediatamente foi presa e entregue à morte juntamente com Bárbara. Ambas foram levadas pelas ruas de Nicomédia por entre os gritos de raiva da multidão.

Bárbara teve os seios cortados, depois foi conduzida para fora da cidade onde o seu próprio pai a executou, degolando-a. Quando a cabeça de Bárbara rolou pelo chão, um imenso trovão ribombou pelos ares fazendo tremer os céus. Um relâmpago flamejou pelos ares e atravessando o céu, fez cair por terra o corpo sem vida de Dióscoro. Isso teria acontecido no dia 04 de dezembro da era moderna. Hoje dia dedicado à santa. Depois deste acontecimento, Santa Bárbara passou a ser conhecida como “protetora” contra relâmpagos e tempestades e é considerada a padroeira dos artilheiros, dos mineiros e de todos quantos trabalham com fogo. Ela também é madrinha do Corpo de Bombeiros.

Na Umbanda Iansã (mãe do céu rosado ou mãe do entardecer), costuma ser saudada após os trovões, não pelo raio em si (propriedade de Xangô ao qual ela costuma ter acesso), mas principalmente porque Iansã é ligada diretamente a Xangô, o senhor da justiça e ele não atingiria quem se lembrasse do nome da sua amada. Ao mesmo tempo, ela é a senhora do vento e da tempestade quase palpável em sua formação no alto da torre de pedras. Iansã sabe amar e gosta de mostrar seu amor e sua alegria contagiante da mesma forma desmedida com que exterioriza sua cólera. Ela sempre guarda boa distância dos outros Orixás feminina, se aproxima mais dos terrenos consagrados tradicionalmente ao homem, pois está presente tanto nos campos de batalha, onde se resolvem as grandes lutas, como nos caminhos cheios de risco e de aventura. Não gosta dos afazeres domésticos e é extremamente sensual, apaixona-se com frequência e a multiplicidade de parceiros é uma constante na sua ação, raramente ao mesmo tempo, já que Iansã costuma ser íntegra em suas paixões, assim nada nela é medíocre, regular, discreto. Suas zangas são terríveis, seus arrependimentos dramáticos, seus triunfos são decisivos em qualquer tema, e não quer saber de mais nada, não sendo dada a picuinhas, mas se permite a pequenas traições.

 É o Orixá do arrebatamento, da paixão. Foi esposa de Ogum e, posteriormente, a mais importante esposa de Xangô. É irrequieta, autoritária, mas sensual, de temperamento muito forte, dominador e impetuoso. É dona dos movimentos (movimenta todos os Orixás). É ela que servirá de guia, ao lado de Omulu e Obaluaiê, para aquele espírito que se desprendeu do corpo. É conhecida como a Senhora da Morte. É ela que indicará o caminho a ser percorrido por aquela alma, a que faz a colheita. Deusa da espada do fogo, dona da paixão, da provocação e do ciúme. Paixão violenta, que corrói, que cria sentimentos de loucura, que cria o desejo de possuir, o desejo sexual.

É a volúpia, o clímax. Ela é o desejo incontido, o sentimento mais forte que a razão. A frase estou apaixonado, tem a presença e a regência de Iansã, que é o Orixá que faz nossos corações baterem com mais força e cria em nossas mentes os sentimentos mais profundos, abusados, ousados e desesperados. É o ciúme doentio, a inveja suave, o fascínio enlouquecido. É a paixão propriamente dita. É a falta de medo das consequências de um ato impensado no campo amoroso. Iansã rege o amor forte, violento. Seus falangeiros se apresentam na Umbanda como autênticas guerreiras, brandindo sua espada, e ao mesmo tempo felizes.

 Seus filhos são conhecidos por seu temperamento explosivo. Está sempre chamando a atenção por ser inquieto e extrovertido. Sempre a sua palavra é que vale e gosta de impor aos outros a sua vontade. Não admite ser contrariado, pouco importando se tem ou não razão, pois não gosta de dialogar. Em estado normal é muito alegre e decidido. Questionado torna-se violento, partindo para a agressão, com berros, gritos e choro. Tem um prazer enorme em contrariar todo tipo de preconceito. Passa por cima de tudo que está fazendo na vida, quando fica tentado por uma aventura. Em seus gestos demonstra o momento que está passando, não conseguindo disfarçar a alegria ou a tristeza. Não tem medo de nada. Enfrenta qualquer situação de peito aberto. É leal e objetivo. Sua grande qualidade, a garra, e seu grande defeito, a impensada franqueza, o que lhe prejudica o convívio social. Iansã é a mulher guerreira que, em vez de ficar no lar, vai à guerra. São assim os filhos de Iansã, que preferem as batalhas grandes e dramáticas ao cotidiano repetitivo. Costumam ver guerra em tudo, sendo, portanto competitivos, agressivos e dados a ataques de cólera. Ao contrário, porém, da busca de certa estratégia militar, que faz parte da maneira de ser dos filhos de Ogum, os filhos de Iansã costumam ser mais individualistas, achando que com a coragem e a disposição para a batalha, vencerão todos os problemas. Talvez uma súbita conversão religiosa, fazendo com que a pessoa mude completamente de código de valores morais e até de eixo base de sua vida, pode acontecer com os filhos de Iansã num dado momento de sua vida. Da mesma forma que o filho de Iansã revirou sua vida uma vez de pernas para o ar, poderá novamente chegar à conclusão de que estava enganado e, algum tempo depois, fazer mais uma alteração, tão ou mais radical ainda que a anterior.

São de Iansã, aquelas pessoas que podem ter um desastroso ataque de cólera no meio de uma festa, num acontecimento social, na casa de um amigo e, o que é mais desconcertante, momentos após extravasar uma irreprimível felicidade, fazer questão de mostrar, a todos, aspectos particulares de sua vida. Os Filhos de Iansã são atirados, extrovertidos e chocantemente diretos. Às vezes tentam ser maquiavélicos ou sutis, mas, a longo prazo, um filho de Iansã sempre acaba mostrando cabalmente quais seus objetivos e pretensões. Têm uma tendência a desenvolver vida sexual muito irregular, pontilhada por súbitas paixões, que começam de repente e podem terminar mais inesperadamente ainda. Se mostram incapazes de perdoar qualquer traição, que não a que ele mesmo faz contra o ser amado. Enfim, seu temperamento sensual e voluptuoso pode levá-las a aventuras amorosas extraconjugais múltiplas e frequentes, sem reserva nem decência, o que não as (o) impede de continuarem muito ciumentas (o) dos seus companheiros (a), por elas (e) mesmas (o) enganados. Mas quando estão amando verdadeiramente são dedicadas (o) a uma pessoa e são extremamente companheiras (o). Todas essas características criam uma grande dificuldade de relacionamentos duradouros com os filhos de Iansã ou terão relacionamentos que duraram a eternidade. Se por um lado são alegres e expansivos, por outro, podem ser muito violentos quando contrariados. Se têm a tendência para a franqueza e para o estilo direto, também não podem ser considerados confiáveis, pois fatos menores provocam reações enormes e, quando possessos, não há ética que segure os filhos de Iansã, dispostos a destruir tudo com seu vento forte e arrasador. Mas, ao mesmo tempo, costumam serem amigos fiéis para os poucos escolhidos para seu círculo mais íntimo. Ficam extremamente ciumentos com o seu pequeno, porém fiel e verdadeiro círculo de amizade.

Flávio Ferreira
Diretor de Liturgia
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